Lua Nova: "Um filme sem sexo é subversivo"

Diretor da comédia American Pie (de 1999) e de A Bússola de Ouro (2007)- que ele diz detestar -, o americano Chris Weitz, de 39 anos, dirigiu Lua Nova, segundo filme da série Crepúsculo.

Weitz, nascido em Nova York, também dirigiu um filme (Um Grande Garoto), de 2002, que marcou a virada na carreira do ator britânico Hugh Grant, que em 1995 foi preso pela polícia de Los Angeles por pagar uma prostituta para fazer sexo oral dentro do carro.

Na semana passada, o diretor recebeu o editor de VEJA e falou sobre a sua última experiência, a qual teve orçamento de 50 milhões de dólares, o que o obrigou a “descobrir o modo de ter a maior eficiência possível”.

Antes de Lua Nova, o senhor também dirigiu A Bússola de Ouro, da trilogia Fronteiras do Universo, de Philip Pullman. São duas séries que têm em comum o fato de contarem com fãs vigilantes, do tipo que cobram fidelidade das adaptações. Qual é o desafio de trabalhar com esse tipo de livro?

Tudo depende dos poderosos dos estúdios – se eles querem ou não uma representação honesta do livro original. No caso de A Bússola de Ouro, o estúdio não estava interessado. Eles queriam apenas um produto que se parecesse com Harry Potter ou O Senhor dos Anéis. O filme foi reeditado à minha revelia, resultando em uma versão muito pior, que irritou os fãs de Pullman. Foi a pior experiência profissional da minha vida. Summit, o estúdio responsável pela série Crepúsculo, é diferente – entendeu que uma adaptação honesta é o caminho não só para conquistar os fãs dos livros, mas também o público que ainda não os leu. E eu ainda tive a sorte de contar com a colaboração da autora, Stephene Meyer. Sempre que queria introduzir algo novo, eu a consultava por e-mail.

Pullman é ateu, e a série Fronteiras do Universo é crítica em relação à igreja. Stephenie Meyer é mórmon, e há quem interprete a história do vampiro que não quer morder a namorada como uma pregação da abstinência sexual. O que o atrai nessas duas obras?
Pullman não é um ateu agressivo. Há muita espiritualidade nos seus livros. Ele só não tem paciência com a religião organizada tradicional. Stephenie, como você disse, é de outro time – uma mórmon praticante. Eu acho um contraste prazeroso: fui de um livro controverso porque muitos pensam que é uma obra contra Deus para um livro controverso pela razão oposta – há quem diga que é conservador demais. Não tenho problemas com a religião. Não cometi nenhuma traição, não mudei de lado. Acho muito interessante que a série Crepúsculo represente uma visão mais tradicional da moral e da sexualidade. Estranhamente, tem qualquer coisa chocante no fato de que Bella, a heroína, seja virgem, e que Edward seja muito tradicional e não queira transformá-la em vampiro antes que ela case com ele. As analogias e metáforas em jogo na história são muito interessantes. É quase subversivo fazer um filme no qual os personagens não fazem sexo.

E a crítica feminista de que Bella é um personagem frágil, uma reedição da donzela que precisa ser salva pelo príncipe?
Não vejo as coisas assim. Ela é uma jovem em perigo, e Edward é de certo modo uma figura protetora. Mas, pelo menos em Lua Nova, é ele quem faz uma série de tolices e chega ao ponto de tentar o suicídio. Ele se mostra fraco, enquanto Bella se mantém forte, mesmo em seus momentos mais depressivos. É ela quem acaba indo em socorro dele.

Catherine Hardwicke, diretora de Crepúsculo, ficou frustrada com as limitações do orçamento de 40 milhões de dólares. Disse que gostaria de fazer sequências de ação mais elaboradas. O orçamento de Lua Nova foi suficiente?
Trabalhamos com cerca de 50 milhões de dólares. É um orçamento baixo para os resultados que obtivemos e para um filme que carrega a expectativa de ser um sucesso. Mas fazer cinema é sempre trabalhar com restrições – e descobrir o modo de ter a maior eficiência possível.

O senhor disse que, para o visual do filme, inspirou-se na pintura dos pré-rafaelitas, grupo de artistas ingleses do século XIX que buscava uma arte próxima do século XV italiano, antes de Rafael. Não é o tipo de referência que a série Crepúsculo levanta de imediato…
Fui para a Universidade Cambridge com a intenção de estudar arte, mas acabei estudando inglês. Creio que esses pintores vitorianos eram os mais cinematográficos que já existiram. Eles queriam contar histórias em seus quadros, geralmente sentimentais, e recorriam à palheta de cores da arte medieval – daí o pré-rafaelita. Kristen Stewart tem um certo tipo de beleza pré-rafaelita. Podemos imaginá-la em um quadro de Dante Gabriel Rosseti, um dos expoentes do movimento.

Tablóides e sites de fofoca falaram muito do relacionamento entre Kristen Stewart e Robert Pattinson. Isso influiu no filme?
Não, de forma alguma. Eu mesmo sou a última pessoa a saber o que acontece entre eles – o diretor é uma espécie de diretor da escola: ninguém conta nada para ele. O set de filmagem ofereceu um ambiente familiar e seguro para os atores. As invasões de privacidade que acontecem no mundo exterior não tinham lugar no set.

0 comentários:

Postar um comentário