Pablo Vilhaça - Lua Nova está perigosamente perto de ser um filme ruim


Não sou fã de Crepúsculo, primeiro filme da série inspirada nos livros da norte-americana Stephenie Meyer (os quais não li, embora tenha tentado e desistido ao perceber que ela não sabia escrever). Assim, foi com certo temor que entrei no cinema para conferir esta continuação, que, embora não tenha resultado num bom longa, tampouco é ruim. Ainda assim, reparem que tomei o cuidado de não usar a expressão “está longe de ser ruim”, tão comum em frases que se iniciam com um “pode não ser bom” – e o motivo é simples: Lua Nova está perigosamente perto de ser um filme ruim, já que insiste em acompanhar um romance profundamente entediante. Ora, o segredo de uma obra do gênero é relativamente simples: estabelecer um casal que inspire a torcida e a simpatia do espectador, mas Meyer (e a roteirista Melissa Rosenberg) tortura o público com duas figuras desinteressantes e aborrecidas cujo único atrativo dramático reside no fato da mocinha estar sempre prestes a ser destruída pelo mocinho. Mas nem isso é o bastante; se fosse, alguém já teria lançado um filme chamado A Lesma e o Potinho de Sal.

Apesar disso, é fácil entender por que a obra de Meyer despertou o fascínio de tantas adolescentes: Bella (Stewart) é uma garota comum que, dona de uma beleza igualmente comum, passa a ser disputada por homens belos e musculosos que, embora donos de incríveis poderes, se derretem diante da moça. Freqüentando a escola da pequena cidade em que vive, a menina passeia orgulhosa com o namorado vampiro, Edward (Pattinson), que, aos 109 anos, aparentemente continua a tomar pau em trigonometria (ler crítica do original). Depois de um incidente que leva o sujeito a temer pela segurança da amada, Edward e sua família abandonam o lugarejo, deixando Bella em profundo estado de depressão. Por sorte, ela acaba se aproximando de Jacob (Lautner), mas as coisas voltam a se complicar quando a moça descobre que o rapaz é um lobisomem - ou, considerando que ele se transforma sempre que fica nervoso, um lobishulk. Dividida, ela passa a se entregar a atividades cada vez mais perigosas mesmo sendo advertida por Edward (que surge numa espécie de visão ou delírio, como um Grilo Falante fantasmagórico) sobre a importância de tomar conta de si mesma.

Insistindo na metáfora conservadora sobre abstinência sexual ao retratar os esforços de Edward para conter os próprios impulsos (desta vez, Bella chega a voar num avião “Virgin”, escancarando a mensagem), Lua Nova não hesita em sugerir comparações entre sua história e o clássico absoluto de Shakespeare Romeu & Julieta, chegando a retratar o vampiro recitando alguns dos diálogos criados pelo bardo. Isto se revela particularmente desastroso quando Edward abandona as citações e passa a usar os diálogos de Stephenie Meyer, que, pedestres, se limitam a repetições do tipo “Você já me deu tudo só por existir”, “A única coisa que me impede de me matar é você”, “Você já me protege” e “Você é minha única razão para permanecer vivo” – e, juro, há um momento em que todas estas frases são ditas em seqüência, o que não deixa de ser um pequeno feito.

Ainda assim, nada se compara à chatice crônica de Bella, cujo mantra parece ser “Me transforme, me transforme, me transforme!” – o que, confesso, me fez compreender não só por que Edward teme tanto feri-la, mas também por que decide abandoná-la. Por outro lado, é curioso que para isso ele minta, dizendo que não a ama, já que seria razoável supor que Bella perceberia a farsa, já que: 1) trata-se de um clichê velhíssimo; e 2) ela usou a mesmíssima estratégia ao tentar proteger o pai no filme anterior. Em vez disso, porém, ela se entrega à auto-comiseração, despertando de seu estupor apenas ao descobrir que Jacob, cujos avanços ela vinha rechaçando, é um monstro que se odeia e que pode matá-la facilmente – o que naturalmente leva a perturbada garota a demonstrar interesse pelo rapaz. E como Bella aparentemente é uma obsessiva tão grande quanto Glenn Close em Atração Fatal, ela não demora a se oferecer a abandonar tudo para partir com Jacob, provando (como no filme anterior) que uma mulher apaixonada deve valorizar mais os desejos do amado do que suas próprias necessidades e que as conquistas feministas são uma besteira sem tamanho. Mas esta sua subserviência perde apenas para seu talento para constatar o óbvio, já que a moça demonstra um talento inigualável para dizer coisas como “Você está musculoso”, “Cortei o dedo com papel”, “Você cortou o cabelo” e (minha favorita) “Então você é um lobisomem”.

E por falar em músculos, é curioso observar como o diretor Chris Weitz jamais teme o ridículo ao insistir em retratar o ator Taylor Lautner passeando sem camisa durante a maior parte do filme, mesmo sob forte chuva ou à noite – e igualmente interessante é notar que o rapaz só se veste... ao dormir. Ainda assim, isso jamais chega ser a tão ridículo quanto a pele de purpurina de Edward (uma das invenções mais estúpidas de Meyer), que, por sua vez, parece caminhar apenas em câmera lenta, como se estivesse preso num interminável comercial de calças jeans. Bom, ao menos isso é melhor do que ser obrigado a testemunhar Robert Pattinson tentando atuar, já que o rapaz vem se revelando um dos intérpretes mais inexpressivos da nova geração.

Até aqui, contudo, creio não ter dito nenhuma novidade, já que praticamente todos esses problemas se mostravam presentes em Crepúsculo. Por outro lado, há alguns elementos em Lua Nova que certamente o tornam mais assistível do que aquela besteira monumental: em primeiro lugar, a seqüência de pesadelo que abre a narrativa se mostra mais rica em sua significação e mais angustiante do que qualquer coisa presente no original. Além disso, os efeitos visuais se mostram infinitamente melhores e a trilha instrumental de Alexandre Desplat (bem como a incidental) é mais discreta, evitando martelar o espectador. Para finalizar, a seqüência que se passa na Itália e traz Michael Sheen e Dakota Fanning é intrigante não só em sua condução, mas por sugerir que há muito mais por trás desses insossos vampiros do que poderíamos imaginar – e é uma pena que não possamos acompanhar aqueles personagens em vez dos aborrecidos adolescentes emo nos quais Stephenie Meyer prefere se concentrar.

Já o diretor Chris Weitz faz um trabalho apenas correto, perdendo pontos importantes ao escancarar sua falta de confiança na inteligência do espectador (mas quem pode culpá-lo?) durante a seqüência em que, através de sucessivos travellings circulares, estabelece a passagem do tempo ao enfocar a mudança das estações através da janela de Bella – algo que poderia até ser interessante caso o cineasta não insistisse em também indicar, através de letreiros, a mudança dos meses. Da mesma forma, a maquiagem usada para empalidecer os vampiros continua pavorosa, permitindo até mesmo que percebamos o ponto preciso em que ela chega ao fim no pescoço dos atores. E se as discussões supostamente filosóficas sobre a natureza da alma dos vampiros é algo que soa a um bate-papo entre pré-adolescentes, igualmente ofensivo é perceber como um lobishulk pode atacar Bella em um momento apenas para, depois de uma intensa luta com Jacob, surgir sorrindo despreocupadamente e dizendo um simples “Desculpa”, como se nada de grave houvesse ocorrido.

Considerando o talento de Bella para atrair pares românticos bizarros, mal posso esperar para chegar ao quarto filme da série, quando ela provavelmente já estará sendo disputada não apenas pelo vampiro Edward e pelo lobishulk Jacob, mas também pela Criatura de Frankenstein, pelo Monstro do Pântano e por Freddy Krueger. A esta altura, as fãs da “saga” Crepúsculo certamente estarão ainda mais comovidas com a natureza sofrida da garota, enxergando-a como uma romântica inveterada.

Já eu consigo ver apenas uma aborrecida lesma suicida.

Observação: logo ao sair da sessão da meia-noite (a distribuidora não realizou cabines para a crítica fora de São Paulo por algum motivo misterioso).

0 comentários:

Postar um comentário