Espaço sideral




Stephenie Meyer, de 37 anos, vive com o marido e três filhos em Glendale, Arizona. Tímida, religiosa (ela é mórmon), fala baixo e teme aglomerações. Seu passatempo, ler histórias. Tudo nela sugere tédio. Mas Stephenie arrancou do tédio fantasias que a tornaram um fenômeno editorial. Não pensava em virar escritora quando sonhou com um vampiro beijando uma adolescente. Nascia a série Crepúsculo, lançada entre 2005 e 2008, que vendeu mundialmente 77 milhões de exemplares. No fim de 2007, apesar do sucesso, estava entediada outra vez. Viajava de carro sozinha de Glendale a Salt Lake City, em Utah. “A viagem levou 12 horas”, diz. “Foi tão chata que passei a imaginar coisas: e, se o corpo de uma jovem fosse dominado por duas almas, o que aconteceria?” Surgia o romance A hospedeira (Intrínseca, 560 páginas, R$ 49,90), lançado agora no Brasil.
Stephenie colaborou para duas alterações na cultura pop. A primeira é a emergência do magabest-seller. A exemplo de Dan Brown (O código Da Vinci, de 2003) e J. K. Rowling (Harry Potter, 1997 – 2007), as obras de Stephenie chegam ao mercado em tiragens gigantescas e esquema de marketing agressivo aliado ao lançamento de filmes de sucesso. A hospedeira vendeu 3 milhões de exemplares nos Estados Unidos desde seu lançamento, em dezembro. A edição brasileira sai com uma tiragem de 400 mil cópias. A Editora Intrínseca aposta no esgotamento da edição. A tetralogia Crepúsculo - formada pelos romances Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse e Amanhecer – vendeu 2,3 milhões de livro no Brasil. Crepúsculo foi o maior sucesso em 2008 e os três títulos que se seguiram estão entre os primeiros lugares da lista de mais vendidos da ÉPOCA. As vendas nas livrarias se beneficiam da adaptação de ”saga”, como nós, twilighters, chamamos a série, para o cinema. O filme Crepúsculo, de 2008, estrelado por Robert Pattinson (como o vampiro ”vegetariano” Edward) e Kristen Stewart (a menina Bella) foi um blockbuster. O longa eclipse está programado para esse ano, 2010. Em 2011, entrará em cartaz a versão para cinema de A hospedeira, dirigido por dirigido por Andrew Niccol. Isso alterou o perfil de mercado de livros, hoje voltado à crença no consumo garantido.

A segunda alteração é a onda dos vampiros que tomou conta de livrarias, canais de TV, tatros e cinemas. Na esteira de Crepúsculo, estão sendo lançados séries de televisão e livros vampirescos. Nas livrarias dos Estados Unidos, as dezenas de lançamentos do gênero figuram em destaque em estantes com tarja “vampire”. As editoras americanas viram no fenômeno a salvação de um mercado à beira da recessão. “Fico feliz porque autores bacanas de histórias de vampiros que estavam esquecidos agora são reconhecidos”, diz Stephenie. “O fenômeno ajuda a conquistar leitores”.

A autora afirma que nunca havia se interessado pro vampiros, até sonhar com um deles. E foi com vampiros que forjou seu estilo, além de outras referências literárias. Ela se formou em literatura inglesa pela Universidade Brigham Young, mas diz que o curso foi menos importante que sua paixão pela leitura. “Com o sucesso de meus livros, comecei a formular minha própria teoria sobre o fascínio que esses monstros exercem sobre as pessoas”, diz Stephenie. “As pessoas adoram ser assustadas… Exceto eu! Elas são atraídas por aquilo que é repugnante e, ao mesmo tempo, extremamente sensual. O vampiro encarna esse paradoxo.”

Talvez o motivo da popularidade da autora resida nesse paradoxo. Ela se revelou magistral na exploração do desejo humano, em especial a pulsão sexual das adolescentes. A “saga” Crepúsculo (na verdade um romance seriado) trata da lenta e saboreada iniciação de uma jovem ao sexo. Bella passa por estágios de sexualidade, do mais primitivo (ela se apaixona por um lobisomem em Lua Nova) à redenção pelo matrimônio religioso com um vampiro civilizado que, apesar de se esforçar em beber apenas sangue de animais, mal contém seu libido selvagem.

Em A hospedeira, Stephenie aciona de novo a ilusória contradição entre o horror e a sensualidade. Só que substitui o conto gótico pela ficção científica e os vampiros por alienígenas. Eles são parasitas de corpos que nasceram no planeta Origem e migram de mundo a mundo, em busca de hospedeiros dóceis. Têm 16 cm de altura, lembram tarântulas prateadas, dotadas de milhões de cerdas fosforescentes. Ao chegar à Terra, as aranhas encontram certa resistência dos humanos. Mesmo assim, conseguem se apiossar da maioria dos corpos para lhes roubar a energia e a consciência. Para isso, se implantam na medula dos hospedeiros por meio de um corte na nuca. “Eles se parecem com vampiros, mas são bons, porque querem no fundo salvar a humanidade”, diz Stephenie.
Stephenie Meyer vendeu 77 milhões de exemplares da saga Crepúsculo. A hospedeira, agora lançada no Brasil, chegou a 3 milhões.

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